Levar crianças para lugares públicos à noite pode causar danos irreversíveis ao cérebro

por Carlos Diz

Os principais danos incluem: estresse crônico, agressividade, transtorno de déficit de atenção, atraso na fala, dislexia, dificuldade de aprendizagem, rebeldia e comportamentos anti-sociais, descaso para o risco, dependência de hiper-estimulação, menor inteligência racional e emocional, propensidade ao bullying, etc. Ou seja, a fórmula para criar um pit-boy ou pit-girl: adolescentes rebeldes, que usam drogas, batem nos colegas, não estudam, participam de pegas, engravidam, etc.

Se quiser saber como isso acontece leia mais.

Tenho notado que está se tornando cada vez mais comum ver casais, normalmente jovens, com nenéns ou crianças de menos de 6 anos, em restaurantes e bares à noite. Frequentemente essas crianças mostram claros sinais de stress: manha, choro, malcriação, hiperatividade, etc. Alguns até ficam correndo pelo restaurante e/ou soltam gritos sem razão aparente. Tudo isso enquanto os pais conversam e tentam jantar.

Concordo que todo mundo tem direito de se divertir e sei que é difícil encontrar com quem deixar as crianças à noite. Mas me pergunto se a diversão dos pais justifica causar danos permanentes e sérios aos cérebros dessas crianças. O pior é que as consequências aparecerão na adolescência e trarão uma série de problemas para os próprios pais. Ou seja, esses pais estão trocando poucas horas de diversão hoje por anos e anos de muita dor de cabeça e sofrimento daqui a alguns anos. Se os pais não têm consciência do que estão fazendo, então precisam tê-la. Se têm, então são criminais.

O cérebro de um neném e, em geral, até os 8 anos de vida, é um órgão em frenética formação. Isso quer dizer a produção de novos neurônios e sinapses num ritmo alucinante. Nos primeiros 8 meses de vida, o cérebro chega a criar até 30mil novas sinapses (conexões entre neurônios) por segundo para processar e armazenar a enorme quantidade de novas informações e experiências. Durante a infância o principal propósito do cérebro é descobrir em que ambiente vive e como fazer para sobreviver e se dar bem nele. A prioridade desse desenvolvimento é tanta que o crescimento do corpo cai para o segundo plano. Por isso o ser humano é o animal que mais demora para atingir seu tamanho final. O próprio cérebro demora entre 18 e 25 anos para atingir seu ápice de formação (maturidade).

Mas o cérebro não se forma de maneira uniforme. O cérebro emocional, primitivo e equivalente ao de um macaco, já nasce funcionando praticamente a 100%. Esta é a parte do cérebro que percebe o mundo externo e é responsável por assegurar a sobrevivência do ser no ambiente em que vive, gerando hábitos comportamentais para tanto. Mas essa parte do cérebro é muito básica, não é capaz de entender, explicar, deduzir, ou re-interpretar. Percebe as coisas como são, sem filtrar. Tudo o que é percebido como agressivo é inimigo. Tudo o que é parecido é igual e será tratado da mesma forma, com reatividade.

Já o cérebro racional, que caracteriza o ser humano, nasce praticamente zerado e vai se formando e aprendendo a funcionar ao longo da infância e adolescência. Essa é a parte do cérebro que permite entender e diferenciar as percepções, discernir, permitindo formular comportamentos diferenciados, com pró-atividade. Para um adulto a diferença entre um restaurante barulhento cheio de gente e um tiroteio na rua é clara. Para uma criança é tudo a mesma coisa: ameaça.

Na medida em que o cérebro vai se formando e armazenando experiência, a velocidade de formação, densidade e qualidade dos neurônios e das sinapses depende, entre outras coisas, da disponibilidade de hormônio do crescimento. Porém, esse hormônio só é produzido quando dormimos, no horário “natural” de dormir. Crianças pequenas precisam dormir muito porque precisam de muito hormônio do crescimento. Ficar acordadas até tarde (além de 19h) para que os pais possam curtir, significa produzir menos hormônio do crescimento, o que significa menos inteligência e menos competência emocional/comportamental no final da linha. Dormir de dia não produz hormônio do crescimento. Pouco sono já é, por si só, estressante e basta ver os comportamentos dessa crianças no restaurante para perceber que estão mal.

Para o cérebro de uma criança, um restaurante barulhento, cheio de gente falando alto (no Brasil mais que em outros países), muita movimentação e rostos desconhecidos é um ambiente muito hostil. A interpretação inconsciente disso é que o mundo é um ambiente hostil e o cérebro precisa se preparar para lidar com ele. Aprender a ser hostil também, a agredir antes de ser agredido, é, há milhões de anos, uma excelente estratégia para sobreviver-se num mundo hostil. A criança se torna intolerante, agressiva, irritadiça, explosiva. Como criança já vai dar trabalho. Como adolescente poderá ser impossível de se gerenciar, como adulto será um perdedor.

Para se formar o cérebro precisa receber estímulos. Mas tem estímulo e estímulo. Quando uma criança é exposta a estímulos positivos, variados e com conteúdo rico – brinquedos diferentes, objetos que se movem e brilham, música de qualidade e, principalmente, a voz da mãe apontando objetos e explicando palavras, o cérebro se desenvolve para aprender e processar o aprendido na geração de novos conceitos (inteligência, criatividade, etc.) e para estabelecer conexões sociais (sociabilidade, capacidade de colaborar, etc.). É fundamental que períodos de estimulação sejam alternados com períodos de tranquilidade e sono para que os novos circuitos cerebrais possam se consolidar e se conectar com os que já existiam. Se houver excesso de estimulação, se os estímulos forem agressivos (barulho, música em alto volume e/ou ruim como funk e hip-hop, luz muito forte, agitação, etc.) e/ou não houver períodos de tranquilidade, o cérebro não conseguirá processar adequadamente a nova informação ficando sobrecarregado e sentindo-se agredido por esse ambiente hostil. Quando agredido, o cérebro da criança, que ainda não dispões dos recursos de defesa que o cérebro racional – ainda não formado – proporciona, tem duas possíveis respostas: a fuga ou o ataque.

Por uma lado a fuga: introversão exagerada, comportamento anti-social, e até graus diversos de autismo. Por outro lado o ataque: a agressão física, a desobediência, a agressão vocal/verbal – recusas, gritos e palavrões – a malcriação, a manha, etc.

O excesso de estímulo externo, especialmente quando pobre em conteúdo, impede o desenvolvimento de uma capacidade normal de gerar estímulo interno (autoquestionamento, reflexão, auto-diálogo construtivo, etc.), prejudicando o desenvolvimento de uma vida interior rica e produtiva, ou seja, seres superficiais, imediatistas, normalmente egoístas, inconstantes, impacientes, intolerantes, sem persistência e com baixa resiliência. Adicionalmente, cérebros viciados em níveis de estímulo externo excessivo, chegam à vida adulta com forte dependência de hiper-estimulação. Não sendo capazes de se estimular internamente e não encontrando estímulo suficiente no dia-a-dia, passam a buscá-lo provocando situações que ofereçam esse alto nível de estímulo, testando limites, enfrentando pais e professores, transgredindo leis e o bom senso, não estudando e adotando comportamentos rebeldes, dirigindo em alta velocidade, bebendo em excesso, consumindo drogas, provocando brigas em bares e boates, agredindo fisicamente os mais passivos e indefesos, as minorias, o diferente que percebem como ameaça (homofobia, racismo, misoginia).

Nos últimos 50 anos temos assistido a um crescimento assustador da violência, física e intelectual, na nossa sociedade, especialmente entre jovens e de todas as classes sociais.

Eu tenho certeza que isso é na sua maior parte devido à forma como esses jovens foram criados e tratados quando crianças e adolescentes:

Pouca interação construtiva com os pais (mãe especialmente) por causa da “falta de tempo”, TV, vídeo-game, etc., sobrando somente tempo para a cobrança, a bronca, a censura, a crítica.

Ausência das mães por causa do aumento no número de mães que trabalham e a consequente convivência forçada da criança com estranhos que proporcionam estímulos pobres e, às vezes, até pouco carinho (babás, empregadas, atendentes de creche, professores despreparados).

TV, vídeo-games, internet quando o conteúdo é de violência e transgressão, estimulando-as e proporcionando exemplo de comportamentos questionáveis a serem emulados.

Falta de disciplina no regime de sono, de alimentação e de rotinas domésticas.

 

Conclusão: se os pais continuarem a criar crianças assim, teremos uma sociedade cada vez mais intolerante e agressiva, egocêntrica e individualista, violenta, desonesta, corrupta e anti-ética em geral.

Há alguns anos, no Rio de Janeiro, quatro adolescente de classe média espancaram uma doméstica de cor, num ponto de ônibus da Barra da Tijuca, porque (disseram) pensaram que era prostituta (como se isso justificasse).

Entrevistados na TV alguns pais disseram “a culpa não é nossa”. Mas a dura verdade é que é sim!

 

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