As palavras que você usa fazem diferença

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GANHAR, COLHER, MERECER, FAZER. Poderiam essas palavras estar à base de algumas das diferenças que observamos entre brasileiros, ingleses, alemães e americanos, como, por exemplo, o comprometimento com o trabalho? Que emoções você associa com essas palavras? Qual delas lhe faz sentir mais responsável e no comando? Qual delas lhe transmite uma relação objetiva e direta com o resultado? Qual delas lhe faz sentir mais autor do resultado?

Esses são os verbos usados nos respectivos idiomas para referir-se à remuneração pelo trabalho.

Os brasileiros e a maioria dos latinos, fieis ao conhecido “mañana”, “ganham”. Os ingleses “colhem”. Os alemães e holandeses, “merecem”. Os americanos, não surpreendentemente, “fazem”!

Empiricamente todos sabemos que certas palavras podem provocar pensamentos e sentimentos em nós. Morte, acidente, perigo, são palavras que claramente provocam emoções ruins. Enquanto, festa, vitória e diversão, provocam emoções boas. Essas palavras possuem uma conexão óbvia entre seu conteúdo semântico e as emoções que provocam, e, em geral, temos consciência de como nos afetam.

Mas, e se não somente esse tipo de palavras e, sim, todas as palavras tivessem esse poder, só que palavras com um conteúdo semântico menos obviamente emotivo, provocassem seu impacto à revelia de nossa consciência? E se esses impactos inconscientes tivessem o poder de construir em cada um, um mundo conceitual diferente e de afetar nosso processo decisório, nossas escolhas?

Recentemente, o Prof. Dr. Boaz Keysar, (Psicologia) da University of Chicago e o Prof. Dr. Albert Costa (Psicologia) da Universidade Pompeu Fabra de Barcelona tiveram a ideia de testar se o idioma usado para ilustrar o seguinte dilema teria alguma influencia sobre a decisão: “Se salvar a vida de quatro pessoas dependesse, inevitavelmente, de você decidir sacrificar a vida de uma quinta pessoa, o que você decidiria?”. Tipicamente algumas pessoas escolhem sacrificar a quinta vida enquanto outras preferem não fazê-lo e deixar o inevitável acontecer. Não certo ou errado numa questão como essa.

Porém, em um estudo publicado em abril de 2014, os cientistas relatam ter constatado que, quando um dilema moral, como o acima, é apresentado no idioma não nativo para pessoas perfeitamente bilíngues, essas pessoas optam pela decisão utilitária (a que garante o melhor resultado possível, ou neste caso, o menos pior) muito mais frequentemente do que quando o dilema é apresentado no idioma nativo

Keysar e Costa argumentam que isso ocorre porque a resposta emocional evocada pelo idioma não nativo é menor, reduzindo o impacto das considerações emocionais intuitivas na tomada de decisão.

A noção de que linguagem é uma ferramenta para ter ideias e que, por decorrência, as pessoas que possuem e usam palavras diferentes vivem em mundos conceituas diferentes, não é novidade. Em 1936, Benjamin Lee Whorf, um pastor e linguista estadunidense, publicou diversos artigos apresentando a chamada Hipótese de Sapir-Whorf, que postula que as diferenças na maneira em que idiomas codificam categorias cognitivas e emocionais, afetam a forma de pensar das pessoas, fazendo com que, pessoas que falam idiomas diferentes, tendam a pensar e comportar-se de formas diferentes, dependendo do idioma usado. Ou seja, a palavra teria, além de um conteúdo semântico (significado), um conteúdo contextual/experiencial composto de emoções e pensamentos associados a ela, que se manifestam maiormente no inconsciente, afetando as culturas e os universos mentais das pessoas.

A aceitação dessa hipótese pela comunidade científica internacional teve altos e baixos, mas, ultimamente, está em alta graças a estudos como o acima e de outros cientistas, entre os quais, a Dra. Lera Boroditsky, professora assistente de psicologiia, neurociência e sistemas simbólicos na Universidade de Stanford, que trabalha, há muitos anos, para provar que a fala define a forma de pensar. A Dra. Lera afirma que:”… aprendemos que as pessoas que falam línguas diferentes, de fato, pensam diferentemente e que, mesmo pequenas variações de gramática podem afetar profundamente como enxergamos o mundo”.

Esse conjunto de resultados mostram que os processos linguísticos são pervasivos nos mais fundamentais domínios do pensamento, afetando inconscientemente desde os elementos básicos de nossa cognição e percepção, até nossas manifestações mais abstratas e grandes decisões de vida.

Mas, voltando às palavras apresentadas no início deste artigo, apesar das quatro palavras não possuírem um conteúdo semântico com obvia conotação emocional, eu acredito que elas possam explicar as diferenças na relação com o trabalho de brasileiros, ingleses, alemães e americanos.

Nas quatro culturas trabalho e remuneração estão relacionados, mas estão exatamente da mesma forma na cabeça das pessoas de diferentes culturas? Se as pesquisas estão corretas, a resposta é não. O idioma de cada um afeta a construção cognitiva e emocional da relação produzindo estruturas racionais e emocionais diferentes, com potencial motivacional diferente.

As palavras que usamos para falar com nós mesmos, ainda que não faladas e só pensadas, têm grande influência na construção cognitiva e emocional em nosso cérebro dos conceitos que representam, e isso pode resultar em maior ou menor senso de responsabilidade, motivação, autonomia, competência, etc.

Uma das recomendações que sempre faço aos meus clientes de coaching é que substituam devo, tenho que e preciso, com posso, quero e prefiro. Reflita e veja se isso faria diferença para você.

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