O QUE AS EMPRESAS PRECISAM APRENDER COM AS ESCOLAS DE SAMBA

 

© Carlos Diz (2009)

Alguns anos atrás, um amigo meu que era Diretor Presidente de uma empresa no Rio de Janeiro, me contou que, para encerrar um evento no qual havia reunido a empresa inteira, convidou Joãozinho Trinta o qual, após uma palestra, dividiu as pessoas em quatro “escolas de samba” e pediu que elas voltassem 5 horas mais tarde para um desfile, com enredo, samba enredo, fantasias, alegorias, bateria, mestre sala e porta bandeira, etc. O desfile seria julgado por ele, o Diretor Presidente e mais duas pessoas que Joãozinho havia trazido consigo. Os campeões ganhariam um excelente prêmio oferecido pela empresa.

Surpresas e incertas, mas, animadas, as pessoas se dividiram nos grupos e foram à obra.

Cinco horas mais tarde elas se apresentaram para um desfile. Considerados o curtíssimo prazo, a falta de músicos, de instrumentos e de materiais, o resultado foi realmente surpreendente, me disse o próprio Joãozinho Trinta, quando me contou seu lado da história num avião para os EUA alguns meses depois.

Toalhas de mesa, flores da decoração do hotel, lençóis e toalhas de banho, plantas, vassouras, folhas de jornal e outros materiais improvisados foram usados para fazer fantasias e alegorias. Panelas, copos, garrafas, colheres de pau, bujões, cocos, latas, e outros acessórios viraram instrumentos de bateria, carrinhos para comida e de mão viraram carros alegóricos, e cada grupo desfilou com seu enredo e samba enredo, num nível de animação e empolgação que Joãozinho não havia visto durante os demais trabalhos do evento.

Adorei a história, mas não pensei mais no assunto, até quando, há alguns meses atrás, um cliente me pediu para fazer uma palestra sobre motivação para os funcionários de sua empresa.

Motivação é um conceito muito abusado por aí. Fala-se muito em motivação, mas, em geral, pouco se entende de onde vem a motivação de um ser humano e o que pode ser feito para acendê-la ou abafá-la. Trata-se motivação como se fosse algo injetável, ou administrável por via oral: “Toma aqui! Três doses de motivação!”. A demanda dos executivos por técnicas de motivação é infindável: livros, cursos e palestras são devorados em busca da “bala de prata” que resolverá de uma vez a questão. Apesar disso, a maioria dos executivos se queixa da dificuldade que é motivar as pessoas e, aberta ou secretamente, termina atribuindo a dificuldade às próprias pessoas: “são preguiçosas, sem ambição, pouco sérias, não comprometidas, não querem nada com nada”. Porém, se olharmos para uma escola de samba, veremos que é composta em grande parte precisamente por pessoas do tipo descrito acima. Não são os bacanas e as beldades famosas que fazem uma escola de samba. O que faz uma escola é gente simples, peões de obra, empregadas domésticas, balconistas de lojas e botequins, cobradores de ônibus, etc. Pessoas essas, em geral, consideradas difíceis de “se motivar”. Mas quando se trata de desfilar na sua escola de samba, as preguiças viram leões. Como explicar?

As perguntas que nos fazemos comumente – “como que eu faço para motivar alguém a aprender? trabalhar? fazer seus deveres? tomar seus remédios?” – são as perguntas erradas porque pressupõem que motivação é algo que nós fazemos às pessoas em vez de algo que as pessoas fazem a si mesmas.

A pergunta certa não é “como motivar as pessoas?” e sim “como criar as condições dentro das quais as pessoas motivarão a si mesmas?”

Analisando as escolas de samba para entendermos como conseguem o que conseguem, notamos claramente que elas proporcionam a seus membros as três condições determinantes da motivação intrínseca (MI), como pregam L. Deci e R. Flaste (1995):

  • Autonomia percebida
  • Auto-eficácia
  • Inclusão percebida

 Autonomia percebida

O folião é inteiramente livre para decidir se quer ou não desfilar e em que escola. Ninguém o obriga. Ninguém o cobra. Não recebe nem convites nem intimações. Se não desfilar não será alvo de reclamações. Não ganha nada para desfilar. Não precisa desfilar. No fundo, se desfilar ou não, não vai fazer a menor diferença e ninguém, muito menos a escola, vai notar. Isso tudo faz com que o folião se perceba 100% autônomo.

Auto-eficácia

A auto-eficácia é a crença de um indivíduo sobre sua competência (Albert Bandura – Social Cognitive Theory). Auto-eficácia, assim como competência, é específica a uma área ou atividade. A auto-eficácia não depende do nível real da competência à qual se refere, podendo ser maior, menor ou igual a esta.

Segundo Bandura, as pessoas que possuem uma alta auto-eficácia – ou seja, aqueles que acreditam que podem fazer bem algo – têm mais propensão para enxergar uma tarefa difícil como algo a ser superado em vez de evitado. Ou seja, motivação.

No caso do folião, é claro que ele se percebe competente. Crê que samba muito e que é capaz de fazer o espetáculo. Provavelmente até samba direitinho, mas certamente lá, na hora do desfile, todo folião se percebe um mestre sala em potencial.

Como no final do desfile, não haverá uma avaliação de desempenho, nem feedback, a crença do folião passa a ser verdade.

Uma coisa é certa, para desfilar em escola de samba não precisa ter diplomas, fazer avaliações, passar por provas ou fazer concursos. O folião não precisa se sentir menos que ninguém, na avenida ele é “o cara”.

Inclusão percebida

Ser Portela ou Mangueira ou Salgueiro (como, aliás, ser Flamengo, Botafogo ou Fluminense) é só questão de querer. O folião decide qual a sua escola e automaticamente a escola é sua escola e ele É sua escola. A admissão é automática, incondicional e geral. Não há carteirinhas nem crachás. O folião não precisa fazer nada para ter o direito de pertencer a esta ou àquela escola. A escola o recebe de braços abertos, sempre. Na realidade a escola nem sabe que o folião existe, mas em seu coração o folião sabe que a escola o ama e o aceita assim como ele é, sem julgamento algum. O folião sabe que ele pertence.

 

A escola de samba é um primor de exemplo de como uma organização pode fomentar a motivação intrínseca. Seus membros não são solicitados, não são remunerados, não são treinados, não são reconhecidos, não são supervisionados, e, apesar disso tudo, pisam na avenida e produzem, trabalhando em equipe, um dos maiores espetáculos deste planeta. E saem exaustos, mas, felizes.

Desfilar numa escola de samba proporciona ao indivíduo o que Robert Henri, o grande professor de arte americano, descreveu como “um mais do que ordinário momento de existência”.

As empresas e seus dirigentes precisam aprender com as escolas de samba a criar algumas, se não todas, e parte, se não integralmente, das condições que favorecem um alto nível de Motivação Intrínseca.

Mesmo num ambiente onde a presença é cobrada, atividade é remunerada e supervisionada e os resultados avaliados, o pertencer é instável e contingencial aos comportamentos do indivíduo, é possível fomentar-se um nível de MI mais alto do que existente na maioria das empresas. Algumas raras exceções, a Microsoft, por exemplo, mostram claramente os benefícios.

Interagir com pessoas de forma a fomentar sua MI é algo que pode ser aprendido.

 

 

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