Aprendendo com o patinho feio: para diminuir o preconceito coloque mais atenção nas diferenças.

Eu cresci na Itália, onde vivi de 1956 a 1976. Esta foi uma época muito especial para a Itália e a Europa em geral. Ainda tentando se recuperar da destruição física, moral e emocional causada pela segunda guerra mundial, a Europa, resultado de séculos de guerras e confrontos entre seus diversos países, povos e culturas, era uma Europa Desunida que iniciava um processo de mudança para tornar-se uma Europa Unida. Um dos produtos de séculos de rivalidade e conflitos era um acervo enorme de preconceitos que assolavam as relações entre os povos. O preconceito era muito forte nas relações entre os povos europeus, com uma clara polarização entre o norte (anglo-germânico) e o sul (latino), com a França servindo de ponte e tentando ser as duas coisas ao mesmo tempo.

Me lembro bem de um dia em que com dois amigos fomos de carro até Geneve (Suiça). Estávamos parados num sinal numa das principais avenidas da cidade, quando um senhor idoso que passeava de bengala na calçada ao nosso lado, virou-se e veio em direção ao nosso carro, que tinha placa da Itália, e começou a bater no teto com a bengala gritando “italianos porcos, italianos porcos!”. E eu que nem italiano era…

Em geral os povos europeus não se gostavam e tinham “razões” para isso, mas na realidade se conheciam muito pouco, e suas “razões” estavam preponderantemente fundamentadas em boatos, lendas e fofocas, e eram, em sua maioria, preconceitos. Cada povo sabia o que o outro tinha de ruim e de errado, aliás, mais do que sabia, tinha certeza e, por ter certeza, não se questionava a respeito, não tentava verificar, não percebia evidencias contrárias, e certamente não prestava atenção no que o outro tinha de bom.

Mas isso foi mudando e, devagarinho, a Europa foi se integrando, os povos aprendendo a conviver e trabalhar juntos. No início dos anos 90, o preconceito claramente havia diminuído. Mas isso não significava que a harmonia e o amor mútuo reinassem na região. Ao contrário, o separatismo havia aumentado. A Bélgica, por exemplo, começava a dar fortes sinais de querer se dividir em três ao longo das três diferentes comunidades linguísticas que a compõem (francesa, flamenga e alemã). Para não falar do País Basco, da Irlanda do Norte, da Catalunha, etc. O que estava acontecendo então?

Um dia, em 1992, eu estava indo de carro da Alemanha, onde eu vivia na época, para a Itália e, enquanto dirigia por uma bela estrada nas montanhas Suíças escutava, numa rádio francesa, um debate sobre a questão das relações entre os diversos povos da comunidade européia na época. Alguém disse que um dos benefícios da comunicação entre povos que a integração havia produzido era a ampliação do conhecimento mútuo. Aí, de repente, eu tive um insight. Me dei conta que há uma grande diferença entre não gostar de alguém por uma razão presumida e por uma razão sabida.

Já vimos que nos anos 50 os povos europeus não se conheciam muito bem. Não tinham muita informação um sobre o outro. Assim, baseavam seu julgamento um do outro nos preconceitos existentes, razões presumidas. Preconceito é, literalmente, um conceito antecipado, prematuro, formado antes da hora, antes de termos a real informação – o conceito.

Preconceito é uma variação do que Ellen Langer (1989) professora em Harvard, grande pesquisadora e especialista em Mindfulness, chama de compromisso cognitivo prematuro (CCP), um produto da mente humana e um dos cinco fatores que promovem e sustentam o estado mental de mindlessness, o oposto de Mindfulness (metaconsciência).

Langer exemplifica muito bem o conceito de CCP citando o “patinho feio” o qual, ao sair do ovo e vendo uma pata na sua frente, concluiu – primeiro CCP – que esta era sua mãe e, por consequência – segundo CCP – que ele era um pato. Na realidade ele era um cisne cujo ovo havia sido chocado pela pata, o resto da história e sua moral todos conhecem.  Compromisso porque este tipo de cognição se manifesta como uma “certeza” e nós costumamos sermos muito comprometidos com nossas certezas.  Prematuro porque esta certeza se forma antes (“pre”) de uma exaustiva verificação de explicações alternativas e das evidências contra e a favor de cada uma (“conceito”).

O preconceito é uma certeza não verificada. Uma suposição blindada contra questionamentos em cima da qual a seguir serão baseados e justificados conclusões, comportamentos e outras suposições. O que coloquialmente, no Rio de Janeiro pelo menos, chamamos de “viajar na maionese”.

Assim os europeus tinham um monte de certezas sobre as diferenças que os dividiam, mas muito pouca informação concreta sobre as reais diferenças.

O problema de uma certeza é seu absolutismo. Certezas são binárias, preto e branco, ou tudo ou nada, e generalizantes, válidas para todos e para sempre.

O meu insight foi justamente que o processo paulatino de integração européia, que já durava 30 anos, havia permitido e promovido um maior contato entre esses povos, e o contato havia viabilizado uma maior troca de informações e, de forma natural, essas informações factuais (conceitos) haviam substituído os preconceitos. Os conceitos não eram necessariamente mais positivos que os preconceitos, más, tinham duas características cruciais: eram reais em vez de supostos e eram relativos em vez de absolutos. Ou seja, após 30 anos os europeus haviam deixado de não se gostarem por razões presumidas, e passado a fazê-lo por razões sabidas. As reais diferenças entre os povos e suas culturas eram agora conhecidas. Isso é muito mais sustentador da tolerância por três razões. A razão sabida pode ter graus diferentes de aplicabilidade variando entre indivíduos e situações – a razão é válida para alguns e em certas situações – ao contrário do preconceito que é absoluto (válido para todos e para sempre). Por isso a razão sabida é menos certa pois requer verificação antes de ser usada; e por ambas as razões anteriores tende a ser mais consciente do que a presumida e assim se tornar menos ameaçadora.

Em seguida a diversos estudos efetuados em conjunto com colegas de Harvard, Langer[1] afirma que a compreensão da natureza do fenômeno de mindfulness sugere uma abordagem diferente no combate ao preconceito, uma abordagem na qual em vez de menos aprendemos a fazer mais distinções entre pessoas, distinções mais detalhadas que por serem mais específicas em vez de generalizadas ajudam a quebrar o estado mental preconceituoso. Por natureza, tendemos a não perceber as características “estranhas” do que não nos é estranho. Porém, quando deparados com algo que não nos é familiar, facilmente percebemos as sutis diferenças e estranhezas. Se este processo correr, como é natural, de forma inconsciente, pode resultar em preconceito. Mas, se conscientemente percebermos e com curiosidade genuína explorarmos as diferenças, o resultado pode ser uma maior aceitação e uma interação mais frutuosa.

A experiência mostra que a inclusão de crianças portadoras da síndrome de Dow em escolas comuns leva a uma forte diminuição do preconceito com o qual essas crianças tendem a ser vistas.

O patinhos, entregando-se inconscientemente à certeza de que era pato, concluía que, por ser diferente dos demais patinhos, era feio. E os demais patinhos concordavam. Mas se todos tivessem explorado essas diferenças com curiosidade consciente, provavelmente teriam descoberto que não era feio, simplesmente não era pato. Os patinhos, por serem animais, obviamente não teriam condições de fazer isso, mas nós, seres humanos temos.

“Nem melhor nem pior, apenas diferente”, é o moto da escola de samba Beija-Flor.

A exploração consciente das diferenças reais e de sua sutileza leva a uma maior aceitação e portanto a uma menor discriminação.


[1] Langer & Abelson (1974); Langer & Imber (1980); Langer, Taylor, Fiske & Chanowitz (1976).

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