Sofia e Bingo: o que um cachorro e uma neném têm a ver com plenitude mental (mindfullness).

Sábado passado eu estava tomando café da manhã num restaurante que tem um terraço aberto e, ao lado da mesa onde estávamos sentados minha mulher eu, havia um casal com um filhote de golden retriever, o Bingo. Num determinado momento vieram andando uma mãe segurando pela mão uma neném, Sofia, que devia ter uns 11 meses. Sofia viu Bingo e ficou encantada, e foi recíproco. Claramente Sofia queria muito passar a mão em Bingo e esticava o braço para alcançá-lo, enquanto Bingo abanava o rabo e estendia o focinho em direção a ela. Porém, ao mesmo tempo em que o braço de Sofia se estendia, movido pela curiosidade e pelo desejo conscientes de Sofia, aproximando o tronco de Sofia a Bingo, seus pés, movidos por um medo e uma desconfiança inconscientes, andavam para trás, afastando de Bingo o quadril e as pernas de Sofia. Uma cena muito divertida, pois, com o tronco projetado para a frente e os quadris e pernas movendo-se para trás, Sofia ficava desequilibrada e, praticamente pendurada na mão da mãe, parecia confusa. Bingo só abanava o rabo. Sofia era a evidência física do conflito entre duas partes distintas de seu jovem cérebro. De um lado o sistema límbico, emocional, inconsciente, automático, responsável pela detecção de ameaças e oportunidades no ambiente e pela conseqüente reação de afastamento-aproximação, mandava instruções aos pés para se afastarem rapidamente do que interpretava como sendo uma ameaça baseado num gabarito ancestral, fruto da experiência de centenas de milhões de anos gravada em nosso DNA. Afaste-se de Bingo o predador! Do outro lado, o córtex pré-frontal, racional, curioso, sedento por entender, descobrir, aprender, responsável pela imaginação e pela exploração intelectual, mandava instruções à mão e ao braço de Sofia para se estenderem a fim de alcançarem o que interpretava como sendo uma fofa e divertida oportunidade. Aproxime-se de Bingo o bichinho de pelúcia. O eterno conflito entre a curiosidade e o medo. Entre o desejo e a cautela. Entre a imaginação e a realidade. Quem já não se sentiu numa situação parecida, com parte de si mesmo querendo ir em direção a algo de atraente e outra parte querendo se afastar? Quantas vezes ouvi executivos clientes meus de coaching dizerem “vou ser promovido, estou com medo”, “vou ser transferido para trabalhar no exterior, não tenho dormido bem”, “vou apresentar o meu projeto para o Conselho da empresa, estou nervoso”, etc. Todos exemplos da “síndrome de Sofia”. É claro que, como adultos, somos muito mais capazes de gerir este conflito interno. O nosso córtex pré-frontal, já amadurecido, tem suficiente prática em regular nosso emocional (nervosismo, ansiedade, medo) de forma a não permitir que este nos faça “andar para trás” nessas situações em que queremos andar para a frente. Mas não sempre. Quem já não desistiu de algo que desejava por medo, incerteza, insegurança, etc.?

Onde quero chegar falando disso? Quero apresentar dois pontos. Primeiro, quero salientar a importância de aprimorarmos nossa capacidade de perceber de maneira consciente o que ocorre dentro de nossas cabeças (consciência de nosso pensar e consciência de nossa consciência de nosso pensar) para podermos reconhecer e entender esses momentos de conflito interno e olharmos para eles de forma benigna: “nada mais que duas manifestações distintas de mim batendo cabeça ao tentar fazer a parte que lhes cabe”. Esta consciência ampliada (manifestação de mindfulness 1 ) nos oferece a possibilidade de executar uma das estratégias de regulação emocional disponíveis, a normalização. Segundo, quero salientar a importância de aprimorarmos nosso processo de tomada de decisões soi-disant racionais (um dos processos suportados pela NeuroLiderança®), processo este que desenvolvemos de forma natural ao amadurecer mas não necessariamente usamos de forma ideal. Uma das mais significativas descobertas da neurociência recente é o papel das emoções na tomada de decisões e a importância de sabermos adequadamente integrar os aspectos emocionais ao tomarmos decisões de forma racional.

1 Mindfullness é o termo inglês que denota, entre outras coisas, a capacidade de perceber, monitorar e influenciar nossos processos mentais de forma consciente e volitiva (Trenpa em tibetano, pois o conceito origina-se nos preceitos e práticas Buddhistas)

Plenitude mental poderia ser uma tradução, que porém não transmite totalmente o poder implícito no termo inglês. Metaconsciência seria outra possível tradução, ainda que um pouco mais hermética.

Neurocoaching® e Neuroliderança® são marcas registradas da RCS Brasil

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2 Respostas to “Sofia e Bingo: o que um cachorro e uma neném têm a ver com plenitude mental (mindfullness).”

  1. Luis Vidal Says:

    Gostei, Carlos!

  2. Carlos Diz Says:

    Tks Luis!

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