Mudança comportamental e saquinhos de açúcar

Quem lê meus artigos deve achar que eu vivo em restaurantes ou só tenho inspiração quando estou num restaurante.

Coincidência ou não, aconteceu de novo. Há alguns dias, mais uma vez, estávamos minha mulher e eu num restaurante esperando a comida chegar quando ela resolveu olhar o que havia escrito nos saquinhos de açúcar que estavam numa caixinha em cima da mesa. “Frases inspiradoras” eu imagino tenha sido a intenção do fabricante, parecido com os provérbios nos papeizinhos que achamos dentro dos biscoitos que vêm com a conta em todos os restaurantes chineses.

Algumas até são bastante inspiradoras: “beije mais”, “sorria mais”, etc. Outras, porém reproduzem o erro no qual incorremos comumente quando pensamos e falamos em mudança comportamental. “Diga menos não”, “invente menos problemas”. Frases desse tipo são irmãs de “deixe de comer coisas que engordam” e primas de “quero perder peso” e “vou parar de fumar”.

Você reparou no que elas têm em comum?

Todas refletem uma intenção negativa: fazer menos, parar, perder, cortar, reduzir, etc.

Frequentemente pensamos e falamos com nós mesmos nesses termos, e não só com nós mesmos, já que dizemos para filhos, amigos e outros “pare de fazer …”, “esqueça isso”, “deixe de …” e coisas parecidas. Empiricamente sabemos que raramente este tipo de exortação é eficaz. Vamos tentar entender por que.

Eu conheci David Rock[1] em Sydney em janeiro de 2009. Ele havia ido, muito gentilmente, nos receber no aeroporto e havia levado consigo sua filha mais velha, Trinity de, então, seis anos. A caminho da cidade, Trinity na sua cadeirinha na parte traseira do carro, tentando chamar a atenção dos estranhos recém conhecidos, começou a cantar em voz alta, justamente enquanto David dirigia e tentava conversar conosco.

Num determinado momento, com Trinity claramente determinada a mostrar seus dotes vocais, David dirigiu-se à filha e disse “Trinity, você consegue pensar em um comportamento mais agradavel para esses nossos novos amigos?”

“Wow! Não é que o homem pratica exatamente o que ele ensina nos livros e cursos dele? E com a filha dele, claramente um sinal de que acredita mesmo!” foi o que eu pensei na hora. E Trinity, após esperar alguns segundos para disfarçar, parou de cantar em voz alta.

Por que ele não disse “pare de cantar” ou algo parecido? Porque David, que entende muito bem como o cérebro humano funciona, sabe que dizer para alguém o que fazer é muito menos eficaz que conseguir com esse alguém escolha por si mesmo o que fazer. E, pior, que dizer para alguém o que não fazer é muito menos eficaz ainda.

O fazer é sempre precedido pelo pensar, assim como o lembrar. Exortar alguém a não fazer ou não lembrar-se de algo é igual a exortá-lo a não pensar em algo. Porém, se eu agora lhe pedir para não pensar num elefante verde, o que vai acontecer no seu cérebro? Muito provavelmente você pensou num elefante verde. Pois é, nosso cérebro não sabe, intencionalmente pelo menos, não pensar. Para processar a instrução “não pensar” precisamos pensar justamente no que não queremos. Para pensarmos em esquecer algo, precisamos antes se lembrar desse algo.

Ou seja, o efeito que conseguimos com essas exortações é sempre o contrário ao desejado. Mas não é só isso.

Todo pensamento, assim como toda memória é o produto da ativação de um circuito de neurônios interconectados, poucos ou muitos dependendo da complexidade do pensamento ou memória. Quando pensamos em algo ou nos lembramos de algo, o que acontece no cérebro equivale a apontar o holofote para um ator no palco de um teatro, a atenção se concentra no ponto iluminado e todo o resto fica no “background”.

O ator focado fica na ribalta. Ativar um circuito traz à ribalta o pensamento correspondente, mesmo que a intenção original tenha sido o contrário. O elefante verde aparece em nossa mente, que a gente queira ou não.

Só que não acabou aqui. O cérebro com seus circuitos de neurônios está sujeito a um fenômeno que pertence ao mundo da física quântica chamado de Efeito Zenão Quântico. Para evitar detalhes técnicos vou exemplificar de forma grosseira, porém efetiva. Imagine uma xícara de água quente. Se a deixarmos em cima de uma mesa, a água irá perdendo seu calor gradualmente, até atingir a mesma temperatura que o ambiente após um tempo X.  Pelo Efeito Zenão Quântico, se a cada dez segundos, medirmos a temperatura da água na xícara, a temperatura diminuirá mais devagar e o tempo X aumentará. Isso não acontece em macro sistemas como a água numa xícara, mas os mecanismos de funcionamento do cérebro são subatômicos e perfeitamente sujeitos às esquisitices do mundo quântico. Ou seja, uma informação, como por exemplo, uma memória, guardada no seu cérebro, tende a perder “força” e “clareza” com o tempo se simplesmente ficar ali guardada. Mas, se você ficar lembrando-se dela, a velocidade dessa perda será reduzida e a memória persistirá por mais tempo. Se a lembrança for muito frequente, poderá até conseguir o efeito contrário e reforçar a memória. Como um músculo que não usado atrofia-se e se usado frequentemente reforça-se, os circuitos cerebrais se reforçam quando ativados.

Quanto mais você pensa em algo mais fácil fica pensar nesse algo.

Como todo comportamento é precedido por um pensamento, pensar no pensamento relacionado com um comportamento, tem como efeito reforçá-lo e com ele, o comportamento associado.

Quando alguém pensa em não fumar, reforça o pensamento de fumar tornando mais difícil largar o hábito. Não que o cérebro não tenha mecanismos de supressão ou inibição de comportamentos. Todos sabemos, por vivência própria, que somos capazes de não fazer muitas coisas que pensamos fazer. Esse mecanismo existe, tem nome complicado “giro frontal inferior direito” (GFID) e funciona bastante bem, como nossas experiências de vida demonstram. Mas não funciona sempre. Quando estamos cansados, emocionalmente enfraquecidos ou distraídos pode falhar. Quando o comportamento é um hábito estabelecido, quanto mais antigo pior, quando é um hábito de disparo rápido ou um vício, fica muito mais difícil para o GFID lutar contra ele. E o que ocorre no cérebro é muito parecido com uma luta física entre o pensamento e o GFID, instrumento da vontade de não pensar no pensamento.

Pensar no que queremos deixar de pensar torna o pensamento indesejado mais forte e a luta mais dura, ou até impossível. Daí o fácil e frequente deslize nas dietas, nos programas de abstinência de fumo, drogas e álcool, etc.

O que fazer então? O que David Rock fez com a filha. Pensar no que se quer fazer, no comportamento alternativo, no que queremos que substitua o que não queremos.

Em vez de pensar em parar de cantar em voz alta, pensar em um comportamento mais agradável. Em vez de pensar em não fumar, pensar em sentir-se melhor, respirar melhor, cheirar melhor, ter mais saúde, etc. Em vez de pensar em perder dez quilos, pensar em chegar ao peso que se deseja atingir.

O cérebro se motiva por resultados positivos. Sempre será mais fácil conseguirmos mais motivação, em nós mesmos e nos outros, se focalizarmos o que sim fazer em vez do que não fazer.

“Diga mais sim”, “Invente mais soluções” seriam melhores frases para colocar nos saquinhos de açúcar.

Se por um lado é difícil e demorado apagar um hábito de pensamento/comportamento, é muito fácil criar um novo e usá-lo em substituição.

Se você quiser experimentar, liste num papel três coisas que você pensa em parar, deixar, largar, diminuir, cortar, etc.

Ao lado de cada uma escreva o que deseja fazer em substituição e o benefício que terá ao adotar esse substituto, sempre na primeira pessoa, ex. “quero me alimentar de forma mais saudável para atingir meu peso ideal de ….”.

Escolha, dentre as três opções, a que mais lhe motiva para começar e passe para outro papel o pensamento/comportamento alternativo e seu benefício.

Leve esse papel consigo no bolso ou bolsa e leia-o frequentemente para acostumar-se a pensar no que deseja sempre que surgir a oportunidade de pensar no que não deseja. Veja se faz diferença. Se não fizer, me escreva.


[1] Autor do livro “Não diga aos outros o que fazer, ensine-os a pensar” (Quiet Leadership).

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Uma resposta to “Mudança comportamental e saquinhos de açúcar”

  1. Paula Giraldelle Says:

    Ótimo texto!!!

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